sábado, 16 de março de 2013

um olhar alemão sobre O LIVRO de água

no jornal Suddeutsche Zeitung







  em português:

Poesia para a Favela

O Museu de Arte Moderna da Bahia, no Brasil, apesar de vigiado por forças militares é capaz de proporcionar leveza



Por dois anos as artistas brasileiras Karina Rabinovitz e Silvana Rezende investigaram como é a vida em uma ilha: o sentimento de estar cercado por água, isolado da vida em terra firme do outro lado, onde a caótica e pulsante metrópole de Salvador está localizada.

“O LIVRO da Água” contém agora oitenta e oito poemas escritos à mão e objetos de videoarte. Rabinovitz, que vive em Salvador, a primeira capital do Brasil, compreende esse projeto como poesia que se expande para além de si mesma na exposição “O LIVRO de água” no MAM-BA (Museu de Arte Moderna da Bahia).

“O livro e a mostra são uma coisa única, em diferentes espaços”, diz a artista de 36 anos. “Nosso trabalho consiste de elementos únicos e individuais que transformam-se em uma composição. Hoje em dia escrever significa estar aberto para novas e velhas técnicas. Ainda assim é o mundo contemporâneo que nos estimula”, explica Rabinovitz.

À medida que a popularidade do vídeo crescia no Brasil, no inicio da década de 70, este transformou-se rapidamente numa importante forma de protesto e resistência em imagens contra o regime. Videoclipes são, nessa terra marcada pelo visual, uma importante forma de arte. Rabinovitz, que desde 2005 trabalha com a videoartista Silvana Rezende, ultrapassa conscientemente os rígidos limites das páginas impressas.  Com sequências de imagens aparentemente oníricas, palavras e letras lúcidas, ela expande a forma de seus poemas.  Contudo, sua videopoesia não adere a nenhuma “dança sonhadora e idealista”. Como ilhas no meio das vidas ruidosas, Rabinovitz já apresentou seus poemas em espaços públicos, como pontos de ônibus em Salvador, ou então pintou seus versos nas faixas de pedestres, fazendo assim brilhar, por um piscar de olhos, a poética lentidão pelo asfalto.

O velho forte caiado de branco em que o museu está instalado, configura-se quase como uma ilha na cidade, diretamente ao mar, sob uma favela.  Não é recomendado vir a pé, portanto para chegar aqui é melhor pegar um táxi, por questões de segurança. A polícia militar vigia o museu dia e noite. No pátio interno há um balanço pendurado nos galhos de uma árvore com flores vermelhas flamejantes, nele o visitante flutua pelos irregulares paralelepípedos do forte; simultaneamente, a voz de Karina Rabinovitz  citando versos de “O LIVRO de Água” ecoa pelos fones de ouvido e é possível escutar o som do mar, som ambiente, poemas e fragmentos de histórias.

Na entrada da Galeria, palavras “A vida servida em doces doses” são projetadas no corpo do visitante por meio de raios luminosos, transformando o próprio espectador em obra. Um chuveiro derrama palavras como água, as deixa como pérolas sobre a pele. No meio da sala, cadernos abertos contêm folhas em branco e encontram-se sobre blocos de madeira. Um projetor projeta o conteúdo nas páginas. A mão de Karina Rabinovitz aparenta estar escrevendo alguns versos no caderno, aponta o lápis com uma faca, continua escrevendo. Depois é projetada, nas páginas do caderno, a imagem de um homem sentado em seu barco durante a chuva.

A videoinstalação “Poesia Telegráfica” (2011) consiste de três cubos de madeira, que flutuam  em uma sala e que são como estantes preenchidas com artefatos encontrados nas ilhas ao redor de Salvador. “É como um inventário das pequenas, invisíveis, mas importantes coisas da região” diz Rabinovitz. Madeira envelhecida/apodrecida, que durante muito tempo foi levada pelo mar, uma rede de pesca, uma corda com nós que não podem mais ser desfeitos, transformam-se em superfícies de projeção para minimalistas sequências imagéticas: um menino que brinca com uma bola no mar, um homem e seu cavalo, uma menininha andando de bicicleta pela praia.
Essas imagens sugerem uma realidade atemporal, como uma imagem em sépia de tempos passados. A “Poesia Telegráfica” é conduzida pelos próprios visitantes. Através de um antigo telégrafo, o visitante dá o impulso à câmera e assim determina o ritmo dos videoclipes. Na parede atrás aparece – e também expostos por meio do telégrafo – um poema. O poema trata de tradição, contradição, da solidão e termina com a palavra de ordem: SOS.          

Michaela Metz

3 comentários:

Camila disse...

Que máximo!!!!!! O texto super descritivo me serviu como aperitivo :o) Adorei!

Parabéns pra vocês!

Um chêro.

Aurea Abensur disse...

Muito bem descrito pela jornalista alemã o magnifico trabalho do " LIVRO DE ÁGUA" Mais uma vez parabéns minha filha adorada.

Naiana P. de Freitas disse...

Parabéns!
Vocês estão ganhando o mundo.

abraços