sábado, 11 de junho de 2016



em junho os caracóis
aparecem nas calçadas e as portas
incham, pra quase não
fechar, deixando abertas
as possibilidades. chove
dentro dos quartos e com os colchões
molhados, temos a chance de dormir
no chão da sala. em junho
os caracóis aparecem
nas calçadas e desaparecem
navios de meus
8 anos, sob o sopro de salitre
que embaça a vitrine
onde guardo
a infância e outras quinquilharias. os caracóis
em junho, aparecem nas calçadas e faço
acordos com a gravidade,
pra levitar ao menos
2 centímetros acima desse líquido
escuro que escorre da boca
de tantos e cai sobre
as máscaras e os caracóis nas calçadas
de junho.

segunda-feira, 14 de março de 2016

talvez aos 50, me torne
a andarilha errante que não
fui aos 20, solta
como a menina descalça, com seu
violão de brinquedo, perambulando
pela rodoviária de Itaberaba, descobrindo
vias cobertas de pó, descansando
sob sombras de ipês
roxos, jogando
totó nos bares de beira
de estrada, fazendo gol
com os bonecos sem cabeça,
vermelhos desbotados, grudando
os olhos nas nuvens. talvez
aos 50 eu faça aquele número
de trapézio que sonho
desde os 16 e segure
com as mãos bem firmes, os pulsos
do vento, pra depois aprender a reviravolta
das cambalhotas e então me soltar sem
lembrar se tem
rede ou não. sim,
aos 50 talvez
eu encha envelopes de depósito
de cheques, com pipoca e corra
pela rua jogando
essas pequenas flores brancas
de milho pelo chão, como pistas de algum
caminho até lugares
inseguros, onde eu possa
chorar à vontade
sob o sol das duas
da tarde, sem me preocupar
em seguir ou voltar. aos 50
talvez sim eu vire
a surfista com o sol tatuado
no corpo todo, que sempre quis
ser e leia ondas, enquanto
visito o vácuo com braços
pássaros e me exibo
de cabeça pra baixo, num floater
sem platéia, jogando
os sacos de areia da matraca
do meu pensamento, pra fora,
em cada aéreo coreografado
com as espumas. talvez
aos 50, quando voltar
a ler este poema, eu seja
tudo isso mais
(era) uma vez.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

2015 no fim e essa estroboscópica piscando. sem parar:


estroboscópica

2012 foi o fim do mundo
de Nostradamus,
mas afinal insistimos, continuamos

[depois de todas as montanhas russas
terem sido tomadas por black blocs
de balaclavas, cantando em coro
uma música punk rock feminista.

depois de um motim de bocetas
terem invadido a catedral de Moscou
gritando contra os eternos loopings
de mulheres violentadas.

e depois de uma estudante brasileira e um jovem russo,
num leilão na internet,
venderem a virgindade
pra um documentário australiano.

em meio a tudo Xuxa, anunciou os abusos
sexuais que sofreu até os 13 anos
e cientistas acreditam que descobriram a partícula
de Deus]

2012.
o fim do mundo de Nostradamus,
mas afinal insistimos, continuamos.

mesmo com essa Sibéria no peito,
Pussy Riot presas,
sonhos desfeitos
e essa roleta russa em brasas.

sábado, 21 de novembro de 2015

selfie poesia

gravamos esse selfie poesia numa tarde, final de agosto e hoje, nesse fim de novembro, meus cabelos já cresceram e as cadeiras 
aqui de casa estão todas de cabeça pra baixo.

mas sim, os encartes de discos, com as letras de música, que li cantando pra minha mãe, enquanto ela costurava à noite, continuam sendo meu primeiro contato com a poesia.

selfie poesia, projeto de Cazzo Fontoura e Jorge Augusto, que apresenta poetas vivos, vivas!

aqui, uma tarde de agosto, nessa manhã de novembro:


  
     

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

sábado, 12 de setembro de 2015

poema de julho, em setembro

há uma semana,
nesses dias menos quentes, em que a duração das noites alonga, recebi
um dos prêmios mais luminosos
de poesia do mundo, minha sobrinha
de 16 anos, que vive no vale do capão,
disse que meu livro de poemas mora
em sua cabeceira, ao alcance
direto de seu coração
(e de suas amigas)
e me mostrou vários poemas
do livro fotografados
em seu celular, que ela leva
aonde quer que vá.
há uma semana,
nesses dias menos quentes, em que a duração das noites alonga, percebi
que já valeu escrever
(quase) tudo que escrevi

domingo, 7 de junho de 2015


há 10.000 anos eu agarro
nuvens com as mãos e plantei um navio
na sola do pé,
e, há exatamente 10 anos, lancei um primeiro livro de poemas.
de lá pra cá sou
um cachorro na janela do carro a 100 quilômetros por hora e ainda
não sei bem onde colocar as mãos.
procuro a ponta do durex sobre
a superfície transparente dos dias e sigo
contando segredos pras estátuas das praças.

há exatamente 10 anos lancei um primeiro livro de poemas.
que são 10.000 anos,
de um bordado em aortas, horas com minhas mãos, horas
com as mãos de silvana, horas
com nossas mãos dadas. fazendo
das palavras, imagens
flutuantes. comemoramos.

porque 10 anos não é nada, mas é tudo

sexta-feira, 20 de março de 2015

vésperas-esperas



nasci chorando, não sorrindo, assim.
vestida de sangue, não de manga e maresia, assim.
no caminho desses anos tenho nascido de novo, muitas vezes.
uma mecha branca começou a brotar em minha cabeça, bem acima do terceiro olho e tenho
me perguntado se não sou um unicórnio.
tenho dúvidas sobre o que sou.
e quando se nasce de novo tantas vezes, é mais difícil saber.
nascer não é fácil.
mas é bom.
parto flutuando
pra mais um dia não amniótico, entre
pastas de dente, medalhas enferrujadas e marujos que me acenam por detrás de janelas entreabertas.
a vida, ela explode.
cheia de sangue, manga, maresia, nesses dias de choros, risos, riscos.
eu nasci amanhã.